top of page

Academia de Letras, Cultura e Artes do Centro-Oeste
A L C A R T E S

Fundada em 15 de setembro de 1987
CADEIRA 16
MANOEL CAVALCANTE PROENÇA

Escritor mato-grossense, autor de “O Alferes e outras histórias”, “Uniforme de Gala” ( Narrativas sobre a vida na caserna) e “Manuscrito Holandês” ou a “Peleja de Mitavaí com o monstro Macobeba”, Cavalcante Proença apresenta contos de boa qualidade, numa linguagem pontuada pela precisão linguística, pela exploração da psicologia humana e pelas ações bem engendradas. Todavia, a sua obra de maior importância é o romance “Manuscrito Holandês”, obra em que emerge o substrato cultural da terra Mato-Grossense, na incorporação e composição da personagem indígena Mitavaí, e de mito ancestrais atualizados nos personagens lendários que povoam o livro, resgatando, sob um olhar intertextualizante, toda uma tradução mitopoética que se origina do in illo tempore. Além de uma valorização de elementos próprios da região mato-grossense, observável nos textos que entabulam a descrição dos usos e costumes mato-grossenses. A ligação do autor com a sua religião não se restringe à mera discrição paisagística. Ao contrário, a visão que perscruta o elemento interno, paisagístico, não se mantém impassível a ela, mas a ele se funde e com ela se confunde, oportunizando a criação de quadros telúricos, como o abaixo citado, que se mostra Mitavaí em intima relação com o Rio Irovi:
“Às Vezes, fico pensando que sou irmão do Rio Irovi: O senhor do centro não conhece o rio. Eu nasci nas cabeceiras dele. Amigo do rio deste de menino. Menino eu, menino ele. Rio não é como a gente que, quando vira homem, acaba o guri. Ele não apaga a idade, é menino rapaz homem, tudo ao mesmo tempo, sem mistura. Conheço o Irovi das cabeceiras. Um pindaival no meio da várgea. Três Cordilheiras de buritirana se juntando no olho d’água maior, igualzinho rastro de ema. Meu pai que não conhecia, dizia: ‘o pé do mutum’. Que me importa. As marcas não viajam de longe para fazer ninho e conversam a tarde inteira, enquanto não escurece, trazendo o povo que mora na pancada do mar. Não viu o tenente farmacêutico que falou no dia da independência? Ele falou que os europeus só queriam tirar vantagem de nós, e não davam nada. Fiquei vendo que já ouvia uma conversa parecida. Agora me lembro das maracanãs tramelando. Falavam igualzinho, do sertão se acabando para o povo da ribeira da água se fingir de estrangeiro (...) Eu tenho que libertar as borboletas, as rolinhas fogo-apagou, um beija flor vai cantar sem ser papagaio. ”
Manoel Proença é o primeiro auto a fazer o uso da linguagem mitopoética com sucesso na criação romanesca em Mato Grosso e o primeiro também a universalizar a natureza mato-grossense, elevando-a para um plano mítico. É também o primeiro escritor mato-grossense, a demostrar preocupação ecológica em seus textos.
bottom of page